Estava andando pela cidade, quando comecei a revirar a vida. Chegando em casa, em meio de quatro paredes brancas, me lembro de ter visto a sujeira debaixo do tapete. Parecia que as coisas estavam guardadas por séculos e que nunca haviam sido limpas e perfumadas. Daí, me lembrei de que as coisas, para serem limpas, precisa de cuidado. Cuidado e um pouco de paciência. Até que decidi ir ao porão.
Desci até o porão. Encontrei esperança, ali, sentada com ar rude e solitária. Sentia-me como se a fosse, tão presa quanto velha. Abri o baú. Vi o desejo; saudável como sempre. Ao lado do desejo estavam a fé e a prosperidade; ambas com um sorriso amarelo. Revirando as caixas de correspondência, avistei o amor. Tão solitário, tão piedoso. Parecia uma criança que havia perdido seu brinquedo favorito.
Lembrei-me de coisas passadas. Agi como se não fosse comigo. Mas não deu, as lágrimas caíram. A infância que passou bateu na porta, e disse adeus. As coisas que passaram e que as tornaram confusas. Abri a carta do amor. A melodia começou. Parecia que a música do Titanic estava dentro dos meus tímpanos...
Quando ia começar a ler o amor, ouvi o barulho da campainha.
Pulei alguns obstáculos, quase caí das escadas. Subi correndo.
A campainha toca novamente.
Cheguei próxima à porta e perguntei quem era. Ninguém respondeu e ouvi passos cada vez mais distantes. Fiquei frustrada. Fui andando em direção à sala, e sempre olhando para a porta, caso voltasse. Vi um papel branco dobrado em vários pedaços. Corri pra ver. Peguei-o; desdobrei-o. Abri. E senti a mesma melodia ao ler: “estou voltando”.
Pode ser que isso tenha sido verdade. Ou que não tenha sido.
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T. [10/11/08]
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